domingo, 7 de novembro de 2021

Jardim de Lírios

Os sentidos me atordoam

Do mar vem hoje este ventar

Batendo as janelas e as portas abertas

Trazendo um chamado num punhado de areia branca

 

Atordoado, furo as ondas, me lanço ao mar

Tira o rumo deste meu barco

A sereia e o seu cantar

Vênus que dormiu com a Lua, tão nua

 

Metamorfoseada em mulher

Me namora num jardim de lírios

Seu sussurro mistura rimas e prosas 

Enquanto me puxa ao fundo do mar

O inverno está chegando

O vento sopra forte

Carvalhos, sussurros e histórias

As pedras e o chão em que pisas estão gelados agora

A noite chegou para ficar antes que o sol se fosse

Há tempos os corvos não gritam notícias do Norte distante

 

Os muros de gelo refletem a densa floresta além

Será que monta guarda seu irmão de sangue?

O inverno já está chegando, não há nada mais a fazer

Há sombras e escuridão nos olhos do andarilho

 

Traição e infâmia, tempos sem justiça

Um réquiem para todo seu povo

Há nuvens pesadas no céu

Cais

O barco se perdeu

E não foi na tempestade

Foi em noite estrelada

Navegando distraído

Flutuando sobre as águas

 

Hoje o rumo não se sabe mais qual é

O destino faz as vezes de maré

À deriva entorna a vida

 

Não há porto cais abrigo salvação

Para quem lanterna só derrama escuridão

À deriva entorna a vida

 

Faz apelo lança ao mar uma oração

Num bilhete pede a Deus

Talvez perdão

Pela sina aventureira

 

Come o porto bebe o mar sofreguidão

Queima as velas queima as cordas

Queima a paixão

À deriva fica a vida.

Pega um sonho

Dela já não tinha mais notícias

Só os dias da semana tinham passado

E toda aquela tristeza não cessava

 

Do almoço à sobremesa

Se alimentava de paixão

 

Pegou então um pouco de sonho

Costurou os buracos da vida

Se vestiu com aquela fantasia

E com seus farrapos foi sambar na avenida

 

Num desfile sem juízo

Puxando um samba antigo

 

E quando a quarta-feira lhe pediu

Para tirar a fantasia

Abafar o riso

E voltar à vida

 

Das suas cinzas fez um leito e foi dormir

Para sonhar o seu carnaval

Outono

É outono do outro lado da janela

(Porque esta tarde não tem sol)

Além da moldura quadriculada de madeira e vidro

É outono

 

No agasalho das moças

No casaco do homens

No chocolate quente e na fumaça que sobe dele

Já é outono

 

Nas luzes acesas nos postes às 17:30h

Na expressão de quem passa na rua

É outono

 

Na voz da cantora

Nos quadros em preto e branco do Café Expresso do Oriente

Nos braços cruzados e nos cachecóis enrolados

No ritmo mais lento e reflexivo do tempo

É outono

 

Em tudo que pulsa

Em tudo que sente

Nos aromas que ressentem

O outono chegou

 

8.5.06
Marcelo Vieira Graglia

Poeminha

 Para meu filho Pedro

 

Pedi para meu pai

Um poema de criança

De adulto não servia

Pois queria brinquedo e fantasia

 

Pedi um poema

Que fosse pequeno

Um poeminha

Sem muitas palavras, sem muito segredos

 

Um poema bonito

Com bicicleta, bola e pirulito

 

Pedi para meu pai

Um poema de criança

Que não tivesse medo

Mas só esperança

 

Pedi um poema

Que fosse pequeno

Um poeminha

De muito amor e muito sossego

 

Um poema de paz

Que tivesse uma rua e meus amigos

 

Pedi para meu pai

Um poema de criança

De adulto também servia

Desde que tivesse alegria

 

Pedi um poema

Que fosse pequeno

Um poeminha

E nada mais

 

 

7.10.2003
Marcelo Vieira Graglia

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Meu avô

Ponte de ferro sobre o Rio Paraíba em Guaratinguetá (SP) - 1960

Em saudade de Jucá Vieira.

Um som de vozes e sussurros

Um movimento abafado

Que não pertencia àquela casa

 

Pela fresta da porta

Pela retina do menino

O avô amparado em seu pijama

 

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Me lembro mais dos seus gestos

E da sua presença

Do que da sua voz

 

De acordar com a janela sendo aberta

Levantar afobado

De correr para a Rural Willys

 

Me lembro das modas de viola da Rádio Clube

Tocando no rádio do carro com sua telinha prateada

As ruas calçadas com paralelepípedos, o caminho para a escola

 

Me lembro de ajudá-lo a abrir a porta de enrolar da papelaria

De sua garrafinha azul claro

Do seu café com leite de toda as tardes no trabalho

 

Me lembro de vê-lo conferir a prova de impressão

Do valor do serviço bem feito

Do som das prensas e da guilhotina na tipografia

 

Tenho ainda lembranças de muito pequeno, ao seu lado

Entre baldinhos de areia e uma pranchinha de isopor

Numa praia que hoje, de tão diferente, não existe mais

 

Me lembro do cheiro e da cor da tinta verde no portão de madeira, num estilo de porteira

Era casa de seu amigo Thier, na rua do mercado de peixes em Ubatuba

Nunca mais conheci alguém com este nome

 

Da roça, a sensação de frio às 5:15h da manhã, o barro nas botas

As bolinhas de miolo de pão que ele enrolava e carregava nos bolsos para atirar aos peixes 

A espuma do leite morno no curral, ao pé de uma vaca; depois, o gosto quente do mingau de fubá

 

Das minhas refregas com minha avó

Dele, me lembro pedindo calma: - Deixa, deixa...

Ela era a dona da braveza, mas também da ternura

 

Me lembro ainda dos velhos domingos, de esperá-lo ao final da missa da Matriz de Santo Antônio

Me levava de um lado para o outro, um quase quieto, o outro quase em silêncio

Fomos bons companheiros, sem que muito precisasse ser dito entre nós

 

Durante a semana, chegava cedo e dormia com as galinhas, pescando no sofá após o jantar

Acordava por volta das 5h e fazia a primeira barba do dia

Me lembro do cafezinho que passava; levava para minha avó, ainda na cama

 

Após o almoço, de hábito, tomava de um gole uma gema de ovo junto a um bocadinho de vinho do Porto

Uma xicrinha branca; para a saúde, diziam

Cochilava por vinte minutos, fazia a barba de novo e voltava ao trabalho

 

De sua história, sei que estudou até a 4ª. série, mas letrou-se por esforço próprio

Me contaram que, menino, vendia balas no trem para ajudar a família, em Resende, Estado do Rio

Fez isto por toda a vida; sobre ele, ouvia sempre que era um homem bom

 

Tinha modos gentis

E hábitos tão regulares quanto o seu relógio de bolso

Era um homem deslocado do seu tempo, disso eu tinha certeza

 

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Naquela madrugada, quando o espiei ainda em seu pijama

Amparado no corredor

Sabia que ele não voltaria

 

Tive medo, fiquei em silêncio

Depois, voltei a dormir para fugir da realidade

Do dia seguinte, não tenho lembranças, só lampejos borrados

 

Às vezes, me pego pensando

Se deveria ter aberto aquela porta

E simplesmente o abraçado uma última vez

 

 

2.9.21
Marcelo Vieira Graglia