sábado, 8 de abril de 2017

Não agradeceu

Mandei flores para você, não agradeceu
O silêncio que restou, presente seu
Do que resta de nós dois, uma saudade

Esse tempo, agora sei, já passou
Na ilusão que eu semeei um grande amor
Não brotou um só momento
No pedaço deste chão, só tristeza, um desalento, desilusão

Madalena ou Harmonia

Procurei seu endereço
Sua imagem no espelho
Queria postar um livro
Palavras minhas à moda antiga

Surpresas sem sentido
Guardo tudo em armários
Distribuo senhas em números
Segredos de amigos

Codifico a vida
Só para resgatar a poesia
Endereço sem número
Madalena ou Harmonia

Mesmo sem números
Sem endereços
Entendemos os códigos
Somos os mesmos

Hora marcada

Diga àquela mulher, a quem me apresentou
Que o que era passageiro já passou

Conte para suas amigas que uma página de folhetim
Jaz agora virada, esquecida
Só um pedaço, um rascunho de mim

Pega nossa fotografia e vá embora
Apaga as promessas feitas da memória

Que do lado de cá deste rio
A tristeza já brota na estrada
Tal capim que na infância, outro dia, eu pisava

Diga para aquela mulher, a quem me apresentou
Que havia hora marcada, e já acabou

Homem sem trabalho

Caminha, é noite escura nesta vida dura
As pedras que o destino pôs no seu caminho completam seu viver

Lágrimas, esconda
Angústia, essa amiga sua, flor com tanto espinho, se espalha na rua
Como faz viver?

Trabalhava noite e dia para arrimar família
Se a peleja é dura, desistia nunca
Isso era o seu viver

Mas lhe tomam o emprego agora, pobre criatura
Desespero aflora, termina na rua
O que vai dizer?

E se acabar a esperança, o sustento da família
Nesta linha dura, o pão de cada dia
O que vai fazer?

Fragmentos


(A mulher)
Eu fico pensando em como cuidar de você
Como deixar sempre meus olhos
Escorrerem pela sua alma
Sem levar nada
Deixando-te melhor e mais feliz
Fico tentando sentir o que é o amor por você
Como é bom!

(O homem)
Nossa paixão não cabe em nós
Ela transborda, ela derrama
Invade os arredores
Como um mar de águas limpas
Verde-azul transparente
Que ora levanta intempestivo
Que ora serena em calmaria

O seu tempo, a vida de agora
O amanhã, para ela, ainda não existiu
Basta olhar ao redor
Não se espante amada
Tudo que vivemos até aqui
É só um começo que se anuncia
Não desista de mim

A Noite


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Eis a hora
Só escutas o silêncio
Nada mais te resta agora

Vem um vento
Carregando as lembranças
As escolhas e os medos 

Do céu cinzento
A noite sussurra sua chegada
Prelúdio do teu desalento

Todas as crenças
E promessas serão testadas
Toda dúvida, dirimida

Já não há tempo
Para rezas e para nada
O tempo acabou

Naquele tempo

Havia um tempo
Destes que a gente sabe que passa
Sabe que voa
Eu procurava pelos cantos, pelos cafés, pelas ruas
 
E quando finalmente entrava, transbordante de si
Disfarçava e fingia não ver
Como se possível fosse
Não lhe ver

Fingia surpresa, que já não era
E que menor seria
Que o indisfarçável espanto
De fitar seu sorriso

E admirar seus lábios e seu cabelo
O contorno reto do rosto, as linhas do queixo
As mãos, que há tempos já não carregavam
Os anéis que lhe dei

As pernas, a cintura, seus peitos
O contorno do corpo, forte, de raça, de desejo
O riso tímido, os olhos amendoados
O nariz marcante

Mas, cadê o tempo
Que parece que passou
O tempo, que parece que voou
Cadê você?