quarta-feira, 5 de abril de 2023

A pena e o verso

Da pena descia a tinta 

Pena metálica 

Que escorria e molhava 

A folha 

A folha de papel 

 

A pena ultrapassada 

Pena metáfora 

Trocada pela esferográfica 

De plástico, que pena 

É pena desempregada 

 

Que pena da pena 

Tão elegante, vistosa 

Agora, pobre pena 

É pena pobre borrada 

Pena abandonada 

 

Que pena cumpre a pena, coitada 

Relegada ao ostracismo 

Apartada da escrita 

Proibida ao poema 

Que tanto amava 

 

Será que um dia 

Lhe anistiam as penas 

Lhe desatam os nós 

E livre das amarras  

É pena liberta? 

 

Será que então 

A pena se achega ao caderno 

E num volteio seduz a folha 

Ejacula em tinta 

E fecunda o verso? 

sábado, 22 de outubro de 2022

Insânia

Vociferavam pelas ruas e becos

Cobertos por fina poeira cinzenta

Inebriados, embebidos, encharcados

Bêbados com os goles de ufanismo e entusiasmo que ora regurgitavam

 

Pareciam dopados

Alheios aos sinais e aos fatos que alertavam aos berros

Era como se um vírus houvesse corroído sua percepção da realidade

Como se uma névoa tóxica os houvesse cegado e corrompido

 

Cambaleavam em bandos e hordas

Uivando e gemendo a cada estímulo

Como cães que reagem a apitos subsônicos

Engalanados em fantasias coloridas e adereços num carnaval desvairado

 

Assim, desfilavam em torrentes agitadas

Como uma maré alta de insânia e inequidade

Que se derramava aos borbotões pelas bordas de uma Terra Plana

Deixando para trás uma terra morta e desumanizada

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Amphipolis


Tudo estava calmo

Um silêncio que de tão calado

Soava irreal e denso

 

Ecos de vozes chegavam

Uns poucos, e distantes

Abafados, ecos

 

Na planície onde haviam lutado como animais ferozes

A poeira se assentava

Os vivos já haviam se retirado

 

Os mortos restavam

Com suas tragédias e seus despojos

O vento, indiferente

Remexia cabelos e farrapos

Iludia os olhos de quem via

Fazendo parecer vida o que só era morte

 

O campo, terra seca e árida, nivelava todos os homens

Valentes e covardes

Filhos e pais

Jovens e velhos

Lúcidos e ignorantes

Amantes e brutos

Todos agora iguais

 

Nas aldeias, nas casas e nas cidades

Já se sabe de quem voltou e de quem ficou

As mulheres se vestem de angústia

Vão buscar os seus

Tudo que está perdido e não pode ser recuperado

Aguarda por elas


domingo, 7 de novembro de 2021

Jardim de Lírios

Os sentidos me atordoam

Do mar vem hoje este ventar

Batendo as janelas e as portas abertas

Trazendo um chamado num punhado de areia branca

 

Atordoado, furo as ondas, me lanço ao mar

Tira o rumo deste meu barco

A sereia e o seu cantar

Vênus que dormiu com a Lua, tão nua

 

Metamorfoseada em mulher

Me namora num jardim de lírios

Seu sussurro mistura rimas e prosas 

Enquanto me puxa ao fundo do mar

O inverno está chegando

O vento sopra forte

Carvalhos, sussurros e histórias

As pedras e o chão em que pisas estão gelados agora

A noite chegou para ficar antes que o sol se fosse

Há tempos os corvos não gritam notícias do Norte distante

 

Os muros de gelo refletem a densa floresta além

Será que monta guarda seu irmão de sangue?

O inverno já está chegando, não há nada mais a fazer

Há sombras e escuridão nos olhos do andarilho

 

Traição e infâmia, tempos sem justiça

Um réquiem para todo seu povo

Há nuvens pesadas no céu

Cais

O barco se perdeu

E não foi na tempestade

Foi em noite estrelada

Navegando distraído

Flutuando sobre as águas

 

Hoje o rumo não se sabe mais qual é

O destino faz as vezes de maré

À deriva entorna a vida

 

Não há porto cais abrigo salvação

Para quem lanterna só derrama escuridão

À deriva entorna a vida

 

Faz apelo lança ao mar uma oração

Num bilhete pede a Deus

Talvez perdão

Pela sina aventureira

 

Come o porto bebe o mar sofreguidão

Queima as velas queima as cordas

Queima a paixão

À deriva fica a vida.