quarta-feira, 5 de abril de 2023

Do fogo

A paixão queimava

Em labaredas lânguidas 

Lambidas insinuantes e sinuosas

Deslizavam e escorriam

Demarcando caminhos do pescoço a virilha


Inebriados

Seus corpos se entregavam à lascívia

Sem contar as horas e sem marcar o tempo 

Sem a pressa corrida do relógio da cidade

Embalados numa dança primitiva


Entrelaçavam suas línguas 

E apalpavam suas partes

Como que para acredita-las

Se tocando a cada instante, que pulsava e tremia

Naquele encontro de corpos e de almas

Naquela festa e naquela orgia 

Ao mesmo tempo gozo e epifania

A rede

A rede se prendia a ganchos amarrados na estrutura de madeira do telhado

Acomodou-se nela sentindo que agora flutuava

A rede como um barco mole sobre águas

Que se moldava sem afundar


Seu corpo livre de quase todo o peso

Sentia-se ao mesmo tempo leve e relaxado

A chuva tamborilava aqui e escorria acolá

Numa espécie de sinfonia hipnótica


Aos poucos desprendia-se de tudo o que o levara até ali

As ansiedades, as materialidades, as vissitudes, os devaneios, a alienação cotidiana

Devagar imergia e se amalgamava àquelas matas, àqueles morros, àquelas terras

Como se a tampa de uma pia gigante, que removida, criasse um vórtice que o sugasse de volta


Um ralo que o puxava para dentro dele mesmo

Sugando suas memórias, suas dores, seus sonhos e seu cansaço

Voltava, assim, ao seu avesso, ao seu anverso, ao útero de si, à sua própria gênese

Para quem sabe beber um pouco do seu começo

A pena e o verso

Da pena descia a tinta 

Pena metálica 

Que escorria e molhava 

A folha 

A folha de papel 

 

A pena ultrapassada 

Pena metáfora 

Trocada pela esferográfica 

De plástico, que pena 

É pena desempregada 

 

Que pena da pena 

Tão elegante, vistosa 

Agora, pobre pena 

É pena pobre borrada 

Pena abandonada 

 

Que pena cumpre a pena, coitada 

Relegada ao ostracismo 

Apartada da escrita 

Proibida ao poema 

Que tanto amava 

 

Será que um dia 

Lhe anistiam as penas 

Lhe desatam os nós 

E livre das amarras  

É pena liberta? 

 

Será que então 

A pena se achega ao caderno 

E num volteio seduz a folha 

Ejacula em tinta 

E fecunda o verso? 

sábado, 22 de outubro de 2022

Insânia

Vociferavam pelas ruas e becos

Cobertos por fina poeira cinzenta

Inebriados, embebidos, encharcados

Bêbados com os goles de ufanismo e entusiasmo que ora regurgitavam

 

Pareciam dopados

Alheios aos sinais e aos fatos que alertavam aos berros

Era como se um vírus houvesse corroído sua percepção da realidade

Como se uma névoa tóxica os houvesse cegado e corrompido

 

Cambaleavam em bandos e hordas

Uivando e gemendo a cada estímulo

Como cães que reagem a apitos subsônicos

Engalanados em fantasias coloridas e adereços num carnaval desvairado

 

Assim, desfilavam em torrentes agitadas

Como uma maré alta de insânia e inequidade

Que se derramava aos borbotões pelas bordas de uma Terra Plana

Deixando para trás uma terra morta e desumanizada

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Amphipolis


Tudo estava calmo

Um silêncio que de tão calado

Soava irreal e denso

 

Ecos de vozes chegavam

Uns poucos, e distantes

Abafados, ecos

 

Na planície onde haviam lutado como animais ferozes

A poeira se assentava

Os vivos já haviam se retirado

 

Os mortos restavam

Com suas tragédias e seus despojos

O vento, indiferente

Remexia cabelos e farrapos

Iludia os olhos de quem via

Fazendo parecer vida o que só era morte

 

O campo, terra seca e árida, nivelava todos os homens

Valentes e covardes

Filhos e pais

Jovens e velhos

Lúcidos e ignorantes

Amantes e brutos

Todos agora iguais

 

Nas aldeias, nas casas e nas cidades

Já se sabe de quem voltou e de quem ficou

As mulheres se vestem de angústia

Vão buscar os seus

Tudo que está perdido e não pode ser recuperado

Aguarda por elas