sábado, 3 de abril de 2021

O velhaco

Máquina de escrever vintage em uma mesa de madeira em um quarto antigo com  livros antigos mesa de escritores retrô | Foto Premium



O poema começava como uma espécie de deslembrança, um olvido

Na penúria daquele quarto que era sua clausura

O papel, já velho, de tez amarelada

Se regalava com as letras, que eram o que sobrava de sua indigência

 

Naqueles tempos bicudos

Em que se vivia das mãos de Deus

A penúria não dava boa farinha
E em nada atinava com seu jeito farsudo

 

Pelas frestas da janela carcomida

Se ouviam as baforadas de ira

Que empesteavam as ruas

Cheias de gente a viver na pindaíba

 

Mas o matuto escrevia, agourento

A vaticinar a sua profecia

Se esquecendo da sua própria miséria

De sua completa incapacidade de resolver a própria vida

 

E da sua misantropia transbordavam palavras de ressentimento e de ódio

E, assim, ele comia-se de raiva

Enquanto chispava impropérios

Em plena Sexta-Feira Santa

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Do que vale a pena


Eita vida ligeira, vida passageira
Num dia a gente é criança
Noutro dia já é gente grande
Gente madura

Corre hora, passa dia, semana, mês, acaba ano
Tudo vai mudando
O corpo, a família, a cidade, o trabalho
Mudam também os caminhos, mudam os sonhos

A gente, às vezes, vive distraído por esta vida
E nem se apercebe do tempo passando, inexorável
A cabeça perdida no passado ou no futuro
E o presente, coitadinho, esquecido

A gente compra coisas, acumula tranqueiras, vive bobagens
Entra de corpo e alma na roda-viva
Mas a vida, ela sempre nos manda lembranças
E nos lembra, na verdade, o que é valia

É um abraço, uma amizade sincera
Trocar sorrisos, exercer mútuo amparo
É toda forma de comunhão
Poder ajudar e poder ser ajudado

Valia é a natureza, o vento, o sol e a chuva, o mar, a montanha
Percorrer uma estrada repleta de boas lembranças
Conseguir domar a mente, acalmar o espírito
Perdoar e ser perdoado

 

São Paulo, 1.7.20

sábado, 13 de junho de 2020

Comunhão


Fechada em sua casa

Telefonou para Jussara, lá na favela

Perguntou sobre ela e sobre os filhos

Ouviu com paciência tantas agruras

Tantas incertezas, tanto que faltava

 

E o Verbo lhe fez em solidariedade

E lhe fez em irmandade

E do que tinha doou uma parte

E como podia acolheu a outra parte

Que, na verdade e de alguma forma, também a acolhia

 

Cercado por suas angústias

Procurou por Luis

E descobriu que Luis não era

Mas era João Francisco

Que do irmão usava o nome

 

E abraçou João Francisco, tão distante

E ouviu dele a improvável alegria

No meio de tanta cólera e tamanha pandemia
Contra todas as impossibilidades, João ainda sorria

E comungou com ele, como se fossem irmãos, um preto, o outro branco.



Marcelo Augusto Vieira Graglia

São Paulo, 13 de junho de 2020

domingo, 27 de outubro de 2019

Saci

Radinho BdF convida você para brincar | Podcast | Rádio Brasil de Fato

Vou andando nesta estrada
Navegando neste rio
Começando uma jornada
Neste rumo que vou indo
Vou levando esta viola
Para amó dum desafio
Doze cordas, verso e rimo

Nesta vida aventureira
Sob sol, chuva e granizo
Já comi muita poeira
Nas beiradas dos caminhos
Vou cumprindo a minha sina
À moda de um viajeiro
Se olhar pra trás me perco

Sete cordas, sete sinos
Na torre de sete igrejas
São Luiz dá o caminho
É sinal de mula preta
Se refuga a montaria
E um redemoinho eu vejo
Tem saci no Mato Dentro

Vou trançar mais uma crina
Vou soprar esse braseiro
Vou salgar aquela sopa
Vou tocar tudo pra dentro
Dar um susto na Maria
Outro assombro derradeiro
Derramar água no leite
Esconder o seu dinheiro
Sou Saci preto e vermelho
Rei da mata, rei do vento
Moro num bambu inteiro
Se me viu já não tem jeito

Marcelo Graglia

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Saudade do Poeta III

Texto de Garagem - Ano 10: Português amoroso LXXXIV

Alberto, decididamente, não era um sujeito fácil.
Se contrariado, mandava logo um Manuel Bandeira e, de peito estufado, trinava: 
- Nada como um modernista para quem não gosta de levar desaforo para casa!

Alberto era valentão, não há dúvida.
Se chamado para a briga… cruzes... não tinha meio termo, era violento:
Sacava ligeiro um Drummond e mandava ver…só pena que avoava...

Alberto não tinha compaixão, ah, Alberto!
Quando desafiado numa querela, afiava sua Lispector e não havia Clarice que pudesse contê-lo.
E nem Cecília e nem Meireles.

Mas, diga-se a verdade, Alberto era um romântico.
Colecionava Bilacs e Vinicius, aos montes. Regava todos os dias.
E sempre que sua paixão por ele passava, Alberto Cora, Coralina, Corava.
  
Marcelo Vieira Graglia

Saudade do Poeta II

 Mariana de Almeida - cinco poemas de vida e morte/amor e guerra

 

Estive pensando.

E depois de tanto pensar, de refletir, de rascunhar equações, algoritmos, de corrigir as contas e os rabiscos aplicando a proporção áurea, descobri que os poetas não morrem.

Poetas apenas pedem licença - poética - e se versificam.

Em suas lápides duras, de pedra, deveria-se gravar em baixo relevo: Tornou-se em versos. E, assim, versificou-se.

 

 

(Mensagem enviada à minha sempre nova amiga Esther, quando da passagem do querido amigo Alberto Gattoni aos versos).

 

 

Marcelo Vieira Graglia

Saudade do Poeta I


Aldemir Martins – Gato Verde com Fundo Azul – AST – 40 X 40 cm – Galeria de  Arte Virtual

Eita poeta apressado, inquieto
Tão ligeiro nas rimas hábeis
Tão ligeiro quanto as suas declamas
Poeta de sorriso rápido

Tão logo aparece o caso
La vem num átimo a piada inspirada
O gracejo educado 
De poeta maroto

Eita poeta do Gato
Do sarau, do causo
Poeta do abraço
Saudade Alberto



Marcelo Vieira Graglia