sexta-feira, 1 de novembro de 2024
Caneta colorida
terça-feira, 22 de outubro de 2024
Elza e Gabriel
domingo, 8 de setembro de 2024
Ao final
Depois de tantos sinais
De tantos avisos
De tantas súplicas
De tantas ameaças
Os ultimatos
As previsões
As maldições
As profecias
A Terra escancarou sua boca enorme
E dela verteu caudalosa baba
Como se um Rio Amazonas inteiro fosse derramado sobre aqueles campos e morros e alhures
Reluzente e dourado, denso e malcheiroso
Os olhos que a contemplaram cegaram
Os ouvidos, quase todos surdos, rompidos
Um bafo de enxofre e calcário queimou narinas e pulmões
O medo congelou corpos e mentes deixando-os estáticos
A fúria titânica rodopiava e se expandia para além e além
Como uma horda bestial
Como um exército de milhões marchando intrépido
As lâminas trucidando e ceifando sem piedade
O ocaso de toda a vida num átimo
Ali desabaram todos os séculos e séculos
Todos os registros, todos os indícios, todos os testemunhos
Desapareceram consumidos por labaredas titânicas, inclementes
Quando tudo sobre sua pele havia evaporado
E nada de orgânico ou vivo restava
A Terra se engasgou com tal entropia
E se contorceu num refluxo gástrico
Entre soluços e espasmos
A Terra sofria
Marcelo G
domingo, 18 de fevereiro de 2024
Agora a chuva veio (em homenagem ao amigo Benito Campos)
Agora a chuva veio
E veio a chuva
A moiá toda terra e toda gente
Que navega pelos descampados
Que anda pelos rios
Toda gente humana
Todo bicho gente
Todo bicho bicho
Toda gente besta
Toda besta gente
É chuva que móia toda terra fértil
Móia tudo o que presta
E tudo o que resta
Móia a comida e móia o lixo
Móia a hóstia e móia a baderna
Eita chuva bendita
Chuva que móia os vivo
E os mortos-vivos
Móia os espritos
Móia os defuntos
E móia as rezas
Eita chuva
Agora a chuva veio
E veio a chuva
A moiá todo sonho e toda sina
A que está escrita
E a que não é sabida
Toda sina santa
Todo santo sonho
Todo sonho esquiso
Toda sina porca
Toda porca sina
É chuva que móia todo torrão escuro
Móia tudo o que brota
E tudo que se esconde
Móia o livro e móia a vela
Móia a semente e móia a terra
Eita chuva bendita
Chuva que móia e tamborila
No metal do telhado do sítio
E em tudo que pulsa e que sente
Tamborila nos corpos
Tamborila nas mentes
Eita chuva
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Do fogo
A paixão queimava
Em labaredas lânguidas
Lambidas insinuantes e sinuosas
Deslizavam e escorriam
Demarcando caminhos do pescoço a virilha
Inebriados
Seus corpos se entregavam à lascívia
Sem contar as horas e sem marcar o tempo
Sem a pressa corrida do relógio da cidade
Embalados numa dança primitiva
Entrelaçavam suas línguas
E apalpavam suas partes
Como que para acredita-las
Se tocando a cada instante, que pulsava e tremia
Naquele encontro de corpos e de almas
Naquela festa e naquela orgia
Ao mesmo tempo gozo e epifania
A rede
A rede se prendia a ganchos amarrados na estrutura de madeira do telhado
Acomodou-se nela sentindo que agora flutuava
A rede como um barco mole sobre águas
Que se moldava sem afundar
Seu corpo livre de quase todo o peso
Sentia-se ao mesmo tempo leve e relaxado
A chuva tamborilava aqui e escorria acolá
Numa espécie de sinfonia hipnótica
Aos poucos desprendia-se de tudo o que o levara até ali
As ansiedades, as materialidades, as vissitudes, os devaneios, a alienação cotidiana
Devagar imergia e se amalgamava àquelas matas, àqueles morros, àquelas terras
Como se a tampa de uma pia gigante, que removida, criasse um vórtice que o sugasse de volta
Um ralo que o puxava para dentro dele mesmo
Sugando suas memórias, suas dores, seus sonhos e seu cansaço
Voltava, assim, ao seu avesso, ao seu anverso, ao útero de si, à sua própria gênese
Para quem sabe beber um pouco do seu começo
A pena e o verso
Da pena descia a tinta
Pena metálica
Que escorria e molhava
A folha
A folha de papel
A pena ultrapassada
Pena metáfora
Trocada pela esferográfica
De plástico, que pena
É pena desempregada
Que pena da pena
Tão elegante, vistosa
Agora, pobre pena
É pena pobre borrada
Pena abandonada
Que pena cumpre a pena, coitada
Relegada ao ostracismo
Apartada da escrita
Proibida ao poema
Que tanto amava
Será que um dia
Lhe anistiam as penas
Lhe desatam os nós
E livre das amarras
É pena liberta?
Será que então
A pena se achega ao caderno
E num volteio seduz a folha
Ejacula em tinta
E fecunda o verso?